O inquérito que investiga a participação de funcionários da Prefeitura de Niterói na Máfia dos Táxis, esquema que promovia a venda ilegal de autonomias na cidade e é apontada pela polícia como causa da execução do então subsecretário municipal de Transportes, Adhemar Reis, em 2010, se tornou mais um na enorme pilha de processos da 15ª Delegacia de Acervo Cartorário (Deac). Ele é um dos mais de 5 mil casos que a unidade, apelidada pelos policiais como “grande túmulo”, por arquivar casos que acabam se tornando sem solução, herdou da antiga 76ª DP (Centro), quando a distrital se tornou Delegacia Legal, em março deste ano.
Segundo policiais que atuam na Deac, que funciona na antiga sede da 76ª DP, na Rua São João, a falta de estrutura impede a evolução de investigações, inclusive de casos de repercussão como a morte de um subsecretário. O próprio delegado que deveria ter assumido o caso, Joel Sá Rego, admitiu sequer ter tido contato com os documentos do caso.
Mas não é por descaso. Afinal, cada um dos investigadores chega a acumular mil processos, já que além dos inquéritos e verificações de procedência das investigações (VPIs), oriundos da 76ª DP, o acervo também recebeu o histórico da 77ª, 78ª e 79ª DPs, além das especializadas de atendimento à mulher (Deam) e às crianças e adolescentes (DPCA), quando estas também receberam o sistema integrado das Delegacias Legais.
E o serviço deve aumentar ainda mais até o fim do ano, quando a 81ª DP (Itaipu) também se tornará Legal, segundo anunciou a chefe de polícia, delegada Martha Rocha.
Pelo menos 30% desses inquéritos que vão parar na Deac, são casos de homicídios ou de outros crimes violentos. Para atender a demanda, a Deac possui apenas três servidores no chamado Setor de Investigação (SI), enquanto seriam necessários pelo menos 10 para atender às necessidades da delegacia, segundo os próprios policiais. Para fazer diligências em todo município, eles contam apenas com três viaturas.
Apenas uma pessoa é responsável por receber e administrar os milhares de processos, ainda discriminados em folhas de papel e uma infinidade de pastas, o que atrasa ainda mais qualquer andamento da investigação. Em toda a unidade, existem apenas quatro computadores, divididos por todos os setores da delegacia.
Mas mesmo com todos os obstáculos, o delegado insiste em afirmar que seu acervo não é um “arquivo morto”, como dizem, e que conta com policiais competentes e dedicados.
“Não considero desta forma, porque tenho esperança em resolver grande parte desses casos. Estamos dando prioridade aos graves e vamos levantar o da máfia dos táxis”, diz o delegado Joel.
Outros casos com mesmo fim
Além do caso da Máfia dos Táxis, que segundo investigações preliminares feitas pelo então delegado da 76ª DP, Luiz Antônio Businaro, chegou a movimentar R$ 4,5 milhões e envolveu a participação de servidores da Secretaria Municipal de Transportes na venda ilegal de autonomias de pessoas já falecidas, outros casos de repercussão estão sob responsabilidade da Deac. Entre eles, o assassinato de três pessoas em um quiosque na Boa Viagem, durante uma ação criminosa que deixou outras duas pessoas feridas em setembro de 2010.
Também entre as pilhas do acervo da Deac, está o inquérito sobre a morte do rapper Cláudio Márcio de Souza Santos, de 37 anos, mais conhecido como Speedfreaks, ocorrida na madrugada de 26 de março de 2010.
A lista possui ainda casos mais antigos como o assassinato do timoneiro do estaleiro Chamon, da Ponta da Areia. Eduardo de Souza Francisco, de 33 anos, em outubro de 2008. Na ocasião, a possível arma do crime teria sido apreendida.
Até hoje, um único condenado por morte de subsecretário
Adhemar José Mello Reis, de 68 anos, foi morto a tiros na Rua Joaquim Távora, no dia 20 de janeiro de 2010. Ele seguia de casa para o trabalho, no carro da Prefeitura, guiado por motorista, quando foi interceptado por outro veículo, do qual saiu a pessoa que efetuou disparos. Adhemar foi levado no próprio carro para o Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap), mas não resistiu.
A investigação do assassinato ficou a cargo da 77ª DP (Icaraí), e depois encaminhada para a Delegacia de Combate ao Crime Organizado (Draco). Mas a investigação do esquema da Máfia dos Táxis que a polícia confirmou que ele investigava, continuou com a 76ª DP.
O presidente da Associação de Taxistas de Niterói, Márcio Nogueira, disse que muitos taxistas na época foram hostilizados. “As pessoas só precisam lembrar que taxistas são trabalhadores e não criminosos. O Adhemar estava regularizando o transporte em Niterói, incomodando muita gente”.
O ex-PM Adair Costa da Silva, o Daizinho, foi condenado a 23 anos pelo crime. Aliás, o único condenado até agora.
O Fluminense
O ex-PM Adair Costa da Silva, o Daizinho, foi condenado a 23 anos pelo crime. Aliás, o único condenado até agora.
O Fluminense
