Quatro em cada dez mulheres têm mioma, um tumor benigno que dá as caras no útero. Em cerca de 1/3 das ocorrências, ele pode ser sinônimo de muita chateação. Por sorte, tratamentos simples e eficazes ajudam a estancar o problema
por Fábio de Oliveira | design Samara Araújo| ilustração Nik
Um, dois, três, quatro, cinco, dez, 20, 30! Esse é o incrível número de miomas que um útero pode abrigar. Não é exagero. A matemática da ginecologia revela outras peculiaridades desse tipo de tumor que surge na musculatura uterina. "Em 99,5% dos casos ele é benigno", afirma, categórico, Marcos de Lorenzo Messina, ginecologista do Ambulatório de Mioma Uterino do Hospital das Clínicas de São Paulo. Além disso, tem predileção por mulheres na faixa entre 30 e 40 anos, dando as caras em cerca de 40% da população feminina. Suas medidas, por exemplo, podem ir dos milímetros aos centímetros. Existem miomas que, de tão grandes, apresentam dimensões semelhantes às de uma fruta como o abacate e chegam a pesar até 3 quilos. O pior é que eles são verdadeiros viciados em hormônios. "Esses tumores dependem de estrógeno para crescer", conta o ginecologista Claudio Emílio Bonduki, da Universidade Federal de São Paulo. "E alguns deles possuem receptores de progesterona." Em grande parte das ocorrências, 60% para sermos mais precisos, eles ficam quietos, sem provocar maiores transtornos. Nesses casos, um acompanhamento periódico com o auxílio de exames como o ultra-som é suficiente. No entanto, quando o fibroma, a outra alcunha do infeliz, resolve marcar presença, é um suplício. De acordo com o tipo, a localização e o tamanho do tumor , a mulher padece com um fluxo menstrual irregular, caracterizado por sangramentos intensos, que duram dez dias ou mais. "No final das contas, a paciente pode até se tornar anêmica", relata Messina.
O ENDEREÇO DOS MIOMAS
Conheça os principais tipos do tumor e suas características
Os miomas surgem na parede do útero. O porquê ainda é um mistério, mas há pistas indicando alterações genéticas e fatores de crescimento de vasos. Quando o nódulo se desenvolve em direção à barriga, é chamado de subceroso — os grandes dão à mulher uma silhueta de gestante. Já o intramural é aquele que dá o ar da sua graça no meio da parede uterina. E o submucoso, que aumenta o risco de abortamentos, desponta para dentro da cavidade do útero. Ultra-som e ressonância magnética flagram os malditos.
MIOMA É UMA COISA...
...cisto, outra. Muita gente, no entanto, confunde esses dois tumores, acreditando que, no final das contas, um é sinônimo do outro. Ledo engano. "Que fique claro: o cisto, que lembra uma bexiga cheia de líquido, se localiza no ovário", explica o ginecologista Marcos de Lorenzo Messina, do HC paulistano. "O mioma, por sua vez, é um tumor sólido que ocorre no útero", conclui. Além disso, o cisto nada mais é do que o invólucro de um óvulo que, no período fértil, não se rompeu. Ele pode crescer além da conta, interferir na ovulação e comprometer o ovário.
Os miomas também alteram a propagação das contrações uterinas. "Isso ocorre porque eles se desenvolvem entre as fibras musculares da parede do útero", explica o ginecologista Carlos Henrique Polli, da Universidade Estadual de Campinas, no interior paulista. Órgãos como a bexiga, coitada, acabam comprimidos por nódulos grandalhões. Sem falar que, ali no meio de campo, alguns tumores podem prejudicar a gestação e até causar infertilidade. Nem tudo, no entanto, são lágrimas nessa história. Há tratamentos cada vez mais eficazes para o mal e novas técnicas promissoras.
Ondas sonoras de alta freqüência, o popular ultra-som. Eis uma das novidades para combater miomas de até 8 centímetros. Trata-se do primeiro método não invasivo para dar um basta no problema. Guiado pelas imagens de um aparelho de ressonância magnética, o especialista bombardeia o tumor com o ultra-som — o calor gerado pelas ondas no mioma é de 80 graus. Mas há senões, como em todo novo tratamento. "Uma sessão dura de três a quatro horas", explica o ginecologista Cláudio Basbaum, do Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo. "Além disso, nódulos pequenos acabam não sendo destruídos." Sem falar no custo do equipamento, cerca de 1 milhão de dólares, o que o torna uma realidade ainda bem distante da maioria dos hospitais do país.
A cauterização bipolar da artéria uterina é outra nova técnica promissora. Ela está sendo pesquisada no Hospital das Clínicas paulistano. Seu principal objetivo é fazer o tumor definhar. Funciona assim: os médicos fazem um corte de 1 centímetro no umbigo por onde introduzem uma câmera — é a chamada videolaparoscopia. Dois outros cortes, de meio centímetro cada, são realizados no baixo-ventre. Por ali vão duas pinças auxiliares, que fazem as vezes de mãos. Por fim realiza-se a cauterização mecânica da artéria do útero, bloqueando a passagem do sangue.
Dessa forma, os miomas ficam sem receber nutrientes. "E aí eles regridem de tamanho", diz o ginecologista Marcos de Lorenzo Messina, especialista que está estudando a técnica. O útero, no entanto, não sai prejudicado com o fechamento do canal que também o alimenta. "Naquela região existem outros vasos capazes de mantê-lo saudável", arremata Messina. Como o procedimento está em fase de avaliação, suas taxas de sucesso ainda são desconhecidas.
UMA EMBOSFERA NO CAMINHO
Por outro lado, os especialistas já têm informações mais precisas sobre os resultados da embolização, que vem sendo empregada desde o começo da década para tratar miomas múltiplos. Como a cauterização, ela visa matar o tumor de fome. Esse fim é alcançado por meio da introdução de micropartículas, as embosferas, na artéria uterina. "Em mais de 95% dos casos, os sintomas diminuem", informa o ginecologista Claudio Emílio Bonduki. "Além disso, o volume dos miomas e do útero se reduz em 50%." Seu colega Cláudio Basbaum lembra que o procedimento tem sido indicado para pacientes sintomáticas e que desejam preservar o útero. "Muitas delas têm histórico de maus resultados com tratamentos clínicos ou cirúrgicos prévios", completa.
MURCHOU!
Veja como é realizada a embolização, procedimento mais moderno para tratar miomas
A técnica de embolização evoluiu a passos largos nos últimos anos, sobretudo no que diz respeito aos materiais utilizados para asfixiar o mioma. "Antes havia o risco de entupir toda a artéria uterina", relembra Marcos de Lorenzo Messina. Dessa forma, o tumor ia para as cucuias, mas os ovários também acabavam prejudicados. Não era para menos. Afinal, ficavam sem receber sangue. "Eles entravam em falência, como na menopausa", diz o
médico. O motivo: o único material empregado na época, o polivinil, ocluía o vaso mais do que o necessário.
Por essa razão, o método era indicado para mulheres na casa dos 45, sem grandes chances de engravidar. Graças ao advento das embosferas, esferas gelatinosas dispostas próximas ao nódulo e que preservam a nutrição ovariana, mulheres, como a auxiliar de vendas Lígia, que tem só 25 anos, podem recorrer à embolização. Remédios à base de hormônios também entram na rodada de tratamentos. Implantes de progesterona controlam fluxos menstruais irregulares ou aumentados, mas provocam inchaços, dores de cabeça e até depressão. Os análogos de GnRH, que geram um estado de menopausa farmacológica, interrompem sangramentos e reduzem o volume dos miomas em até 30%. O efeito, porém, é temporário. "Eles podem ser indicados antes de uma miomectomia", revela Bonduki.
Essa cirurgia, uma outra forma para detonar o problema, consiste na extração literal dos tumores. Há três formas. A laparatomia é indicada para miomas que crescem para dentro ou para fora do útero. É realizada por meio de um corte no abdômen. Tumores que se desenvolvem em direção à barriga, também chamados de subcerosos, são removidos via laparoscopia, aquela cirurgia de cortes mínimos. Por fim, miomas que surgem na cavidade uterina são aniquilados via histeroscopia — aqui, uma espécie de endoscópio é introduzido pela vagina e pelo colo do útero até alcançar o malfeitor, que acaba ressecado. "Infelizmente, depois de uma miomectomia, há 30% de risco de os miomas voltarem", lamenta Bonduki.
Um último recurso cirúrgico é a controvertida histerectomia, a remoção total do útero. "Trata-se de uma solução definitiva, que pode ser recomendada para aquela mulher que já tem uma prole definitiva", explica Bonduki. "Sua indicação é evidente para tumores uterinos ou úteros muito volumosos e deformados por múltiplos miomas", diz Cláudio Basbaum. "Fora esses casos, além da perda da capacidade reprodutiva, a retirada desse órgão pode provocar infecções e desenvolver o sentimento de castração", completa. Assim, segundo ele, é preciso cautela na sua recomendação. "Há mulheres que pedem pela cirurgia. No entanto, elas geralmente já tiveram filhos", diz Messina. "No final, tudo vai depender das condições psicológicas da paciente." E, sem dúvida, sua qualidade de vida deve ser levada em conta.

